Praia Inhame: O Último Paraíso

Se procura um lugar onde realmente consiga ouvir os próprios pensamentos, sentir o verde da natureza, deliciar-se em águas quentes e limpas e encontrar a sua paz interior... À cerca de duas horas do aeroporto internacional de São Tomé, em Porto Alegre, bem à sul de São Tomé e Príncipe, é possível encontrar o último paraíso na Terra. Um lugar onde o toque do Homem não desvirtuou a imponência da natureza: o ecolodge Praia Inhame.

Com 12 bungalows, cerca de 20 funcionários, praia “privada” e vistas de cortar a respiração, tornou-se uma referencia internacional na zona sul da Ilha de São Tomé como um local de turismo sustentável, com um serviço de qualidade num local paradisíaco.

“Praia Inhame surgiu do nada. Primeiramente, como um local onde viríamos passar o fim de semana, sair da capital e vir aqui em família com os amigos. Depois tornou-se no que é hoje e temos o objetivo de alargar um pouco mais”, contou Manuel Nazaré (63 anos), o proprietário da unidade turística.

Nazaré formou-se em engenharia agrónoma na Alemanha e sempre foi uma pessoa atenta a inovações, seja na sua área de formação ou no turismo ecológico. Autor de várias iniciativas pioneiras, como a introdução de novas espécies na horticultura local, a criação avícola e na indústria da panificação ao nível nacional, é no turismo ecológico que se tem concentrado nos últimos 10 anos. Fazer dos seus projetos pilares para um turismo sustentável nas ilhas é o principal objetivo de um trabalho que mistura o lado agrónomo, ambientalista e empresarial.

A sua esposa, Luísa Carvalho (47 anos), é co-fundadora e a gerente do ecolodge Praia Inhame. Formada em contabilidade e gestão, tem 16 anos de experiência ligada à ONG’s no sector financeiro.

“Quando começamos este projeto nem estrada existia para a zona sul. Custou muito. E muita gente quando vinha cá dizia que eu era maluco. Aqui é mesmo o extremo sul de São Tomé, de fronte ao ilhéu das Rolas. E era um matagal, mas eu penso que vale a pena fazer esse tipo de investimento em sítios onde a pobreza é mesmo extrema”, explicou Nazaré. Para o casal é também uma maneira de ajudar a população. Cerca de 80% dos seus colaboradores vive em Porto Alegre, que faz parte do distrito de Caué, que tem cerca de 6.100 habitantes e é considerado o mais pobre de São Tomé e Príncipe.

Maria Fernanda (37 anos), é encarregada de limpeza no ecolodge há 11 anos. Vive no centro de Porto Alegre, é casada e tem 4 filhos. “A vida em Porto Alegre é uma vida normal. Nós temos aí um transporte público que facilita as viagens para a cidade capital. Eu praticamente não vou e não gosto de ir para a cidade. Costumo ir uma vez por ano para visitar os filhos ou quando alguém está muito doente. Gosto muito de trabalhar aqui. O meu sonho é ter uma vida normal. Porto Alegre precisa de mais condições de saúde, mais transporte”, disse com um olhar alegre e sorriso tímido.

Praia Inhame gera também empregos indiretos. Américo Silva (43 anos), agricultor, é um exemplo. Produz ananás, banana pão, mandioca, milho e matabala e fornece ananás a Praia inhame. “Nós compramos cá peixe, frutas, legumes... Mas não é nada fácil investir cá no sul e conseguir abastecer. Exige uma logística muito complicada. E há clientes que muitas vezes nos dão razão quando algo não funciona bem. Por exemplo: se há um grande consumo de ovos, nós não podemos ir ao centro de Porto Alegre nem à Angolares procurar e temos que improvisar, oferecendo uma alternativa ao cliente. E também dependo muito da boa vontade dos meus colaboradores. Por exemplo, falando concretamente dos cozinheiros, que por acaso têm me ajudado bastante”, reconheceu Nazaré.

O empresário já investiu cerca de 2 milhões de euros neste projeto que nasceu há mais de 10 anos e lamenta a falta de incentivos para os investidores nacionais. “O Estado deveria dar uma maior atenção aos investidores. Os juros praticados pela banca são muito elevados. É insustentável. Poucos empresários nacionais têm capacidade financeira para suportar um investimento desse nível, portanto têm que recorrer ao banco. E nós não conseguimos empréstimos com juros de 3% como muitos estrangeiros conseguem e o Estado deveria tentar com alguns parceiros nossos como o BAD e o Banco Mundial, arranjar financiamento mais acessível para os empreendedores nacionais.”

Nazaré frisou ainda que embora muitos empreendedores nacionais tenham vontade de fazer investimentos desta envergadura, não têm condições para o fazer nem conseguem competir com os investidores estrangeiros que trazem o seu capital. “Nós temos que apostar nos nacionais porque enquanto não houver uma classe nacional com capacidade de fazer investimentos de alto nível, nós não vamos crescer nunca porque haverá sempre fuga de capital e nós temos que trabalhar no sentido de nós termos uma classe burguesa nacional”, acrescentou o empresário.

Praia Inhame é a primeira estância turística abastecida por energia limpa em São Tomé e Príncipe. Todavia a capacidade de produção energética ainda não é suficiente para proporcionar tudo o que os clientes desejam, como por exemplo, ar condicionados, mini bar, entre outros. “Estamos em via de solicitar um financiamento para darmos outra dimensão a nossa capacidade de produção de energia. Queríamos dar condições mínimas aos nossos clientes, pelo menos 24h de energia, o que com o gerador era praticamente impossível e insustentável devidos aos custos. Fizemos as contas e chegamos a conclusão que seria mais prático e mais económico investir em energia renovável e não poluente”, disse tranquilamente o empresário.

Neste momento só produzem 35kw de energia, com painéis solares e eólicos. Mas a maior fonte é o sol com cerca de 80%. Planeiam dar uma maior dimensão a produção para atingirem os 95%. Têm um sistema de água quente que funciona com cascas de côco. O abastecimento de água potável do ecolodge é garantido por 3 reservatórios com capacidade de 38 mil litros. A água é captada no rio na montanha Santa Josefina.

Praia Inhame recebe visitantes do mundo inteiro. Muitos escolhem o ecolodge por razões muito específicas. Marta Venezia, turista italiana, disse ao STP Digital que viaja pelo mundo todo e trabalha como guia há 42 anos e que nunca na sua vida tinha encontrado uma natureza com uma força tão incrível. “Descobri São Tomé através da minha agencia de viagens. Há um ano comecei a organizar a viagem para aqui. Visitei o stand de STP na Mostra Internacional em Milão que se chama Expo, que tinha uma apresentação do país muito interessante. Eu visitei 2 vezes, comprei um livro do Ministério do Turismo de aqui e depois pensei em organizar um grupo e estou cá com um grupo de 12 pessoas e estou muito feliz. Escolhemos ficar em Praia Inhame porque é um ecolodge, vi na internet como era organizado, que é tranquilo, ecológico, mas com bom serviço e os bungalows reuniam todas as condições de ótima qualidade e depois a praia fantástica, também falava das tartarugas que se podia ver. Ontem eu vi 3 tartaruguinhas a ir para o mar e tive oportunidade de conversar com a bióloga e depois o lugar que é uma natureza incrível aqui. Também descobri que a comida é muito boa, muito rica, interessante e o serviço é excelente e estamos muito felizes. O lugar é fantástico!”

Edgar Paquete (45 anos), gestor e turista nacional disse ao STP Digital que aprecia muito o ecolodge. Visita esporadicamente mas se pudesse viria mais vezes. “Gosto da natureza e procuro paz. Muitos são-tomenses não saem da cidade capital talvez porque não buscam qualidade de vida. Embora não tenhamos uma cidade grande, o facto desta ser pequena piora a circulação. Está tudo muito acumulado e apertado e acho que a cidade já não tem espaço para passear, já não tem mais nada para ver e para quem realmente gosta de natureza e gosta de desanuviar e sair um pouco da cidade não há melhor lugar do que este.”

O responsável pela Imagem e Marketing da unidade turística, Rui Rodrigues (28 anos), contou que conheceu o projeto em 2014, na Feira Internacional de Turismo em Londres (World Travel Market), identificou-se imediatamente com a filosofia dos fundadores e em 2015 juntou-se a equipa. “Estamos a passar uma imagem de turismo responsável. Promovemos um turismo que tenha a ver com a proteção do ambiente, manter a boa prática do turismo sustentável, a imagem é realmente uma imagem verde. Uma imagem que realmente reflete a beleza que nós temos cá na zona sul de São Tomé e é uma imagem limpa.”

Rodrigues acrescentou ainda que continuam a investir em feiras internacionais de turismo: “No ano passado, tive a oportunidade de estar novamente em Londres, foi uma feira que realmente nos ajudou a estabelecer novos contactos com agências britânicas que é um mercado que nos interessa e no qual queremos entrar de forma agressiva. Portanto, é importante promovermos a nossa imagem e que as pessoas saibam o que nós temos cá e a participação nestas feiras é sempre uma oportunidade para estabelecer contactos e trazer clientes para São Tomé e Príncipe”.

As maiores atrações do empreendimento têm sido as tartarugas marinhas, que desovam na Praia Inhame ente Outubro à Março. Os golfinhos, as baleias e os macacos também atraem muitos turistas. O Morro Chapa, conhecido pela presença dos soviéticos na altura da Guerra das Malvinas (ou Guerra do Atlântico Sul) e procurado pelas ruínas dos equipamentos por eles deixados é outro ponto de atração. Ao visitar o ecolodge pode também apreciar a Praia Piscina, o rio Malanza (onde é possível fazer um passeio que inclui observação de pássaros), passeios de barco para zona de São Miguel e para a zona norte de São Tomé.

O lema do ecolodge Praia Inhame é utilizar o que é local e servir aos seus clientes produtos biológicos. Com a visão de sistematizar, dinamizar e consolidar melhor o que já existe para melhorar o conforto, lazer e os serviços. Pretendem ser um exemplo do valor nacional e do turismo sustentável nas ilhas maravilhosas.

Nazaré deixou claro que pretendem crescer assim que possível: “Nós temos uma dimensão que não é rentável (12 bungalows ). Estamos em vias de obter um financiamento para construirmos mais 6 bungalows. Existem grupos que querem fazer retiro cá, mas nós não temos condições para tal, pois são grupos que exigem um bungalow por pessoa. Por outro lado, receber grupos maiores, exigiria aumentar a equipa. Queremos chegar ao ponto ideal para conseguirmos rentabilizar o espaço. Segundo um estudo que já fizemos precisamos de no mínimo 18 a 20 bungalows para rentabilizar uma unidade desse nível”.

Outra grande aposta do empreendedor é a formação dos colaboradores. “Nós temos um défice muito grande de pessoas com preparação para trabalhar na área turística. A Recepção é um problema, um bom cozinheiro encontra-se mas falta aquele toque que normalmente um chefe tem, servidores de mesa é ainda mais complicado (não sabem servir bem os clientes). Há também a questão de prestar atenção aos pequenos detalhes, que parecendo que não fazem toda a diferença, como por exemplo a ornamentação do espaço”.

Nazaré lamentou ainda a perda de valores da sociedade. “Deixamos de pôr em prática bons valores. O modo como as pessoas se comportam na rua... Querem transportar para um espaço como este, e muitas vezes, criam-nos problemas. As pessoas comem bolachas e deitam a embalagem para o chão, garrafas vazias, e para se ter um espaço eco e limpo implica estar sempre a sensibilizar as pessoas para não deitarem o lixo para o chão. Precisamos de uma educação mais direccionada nas escolas, diria mesmo desde a creche até ao 12.ano para que as pessoas tenham mais consciência de como lidar com a natureza. As crianças só querem matar pássaros, colher frutas verdes... São pequenas coisas que eu acho que a escola pode contribuir para solucionar”, disse o fundador do ecolodge Praia Inhame.

Aos fins de semana as noites do magnifico paraíso são animadas pelo músico Zezito Mendes (50 anos), que em combinação com o espaço acolhedor, a simpatia dos funcionários e a brisa do mar inebriam a âmago de qualquer visitante, que inevitavelmente se despe do stress e rende-se aos encantos deste último paraíso.

Escrito por
Katya Aragão
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