Um diálogo de emoções com o poeta Carlos Cardoso

Conversamos com o escritor são-tomense na verde e íntima esplanada do Pico Mocambo. Foi uma conversa sobre o poder das palavras, sobre a familiaridade da língua portuguesa e, claro, sobre São Tomé e Príncipe. Com Poesia Para Todos (2014) e Somos Todos Primos (2016) na bagagem, Carlos Cardoso visitou uma vez mais a terra que o viu nascer. Aos 41 anos, Cardoso é totalmente dono do seu destino. Faz o que tem de fazer para viver, sem deixar de viver o que realmente o faz feliz.

Nasceu e cresceu em Água-BoBô. Deixou o país em 1997 com destino a Portugal e, finalmente, Holanda. Veio de uma família humilde, “uma daquela típicas famílias são-tomenses em que o pai abandona a mãe”, disse com um certo travo amargo na língua. Foi obrigado a crescer com os avós, tios, primos e padrinhos e por aí fora. Disse que não sabe quem é. “Cada vez que vou descobrindo as coisas, vou também, notando que vou me descobrindo” e convida os leitores a mergulharem nos seus poemas para o conhecerem melhor.

Reside em Roterdão (Holanda) desde Setembro de 2002. Um dia deseja regressar para a terra natal: “São Tomé e Príncipe é um país maravilhoso com tanto para dar, espero que o futuro esteja a meu favor e que possa realmente realizar este sonho. Mas não posso dizer que irei voltar, mas sim gostaria muito e irei trabalhar para tal”.

Tudo o que se move, tudo o que existe, a vida em si, a sua mulher, os sentimentos como o amor, a saudade, o espírito de aventura, a dança, o quotidiano... tudo o inspira. Cardoso disse que a vida é a matéria prima de qualquer escritor.

“Palavras, o meu brinquedo preferido, a arma que uso nas minhas batalhas do quotidiano”, assim descreve o poeta a sua relação com as palavras no poema “Palavras”, da obra Somos Todos Primos – Um diálogo de emoções. Nesta obra Cardoso tem uma co-autora, a portuguesa Alda Batista. Conheceu-a através da Associação de São Tomé e Príncipe em Luxemburgo. O poeta descreve a ligação entre ambos como uma parceria, uma combinação de pensamentos e preocupações que os levou a criar a obra. “Posso acrescentar que a forma como nos conhecemos foi um tanto obra divina porque, primeiramente, contactei a Associação Grupo Amizade Cabo-verdiana (GACV) em Luxemburgo para uma possível apresentação do livro Poesia Para Todos no ano passado e foi através do Presidente desta Associação, José Henrique de Burgo, que fiquei a saber da existência de uma associação são-tomense”.

Burgo também serviu de ponte para o autor conhecer Jailson Spencer, “a pessoa que desde do primeiro contacto senti o germinar de um futuro projeto e senti que era a pessoa que eu procurava para uns projetos solidários que tinha em mente”.

Ao conhecer Alda Batista, ficou a saber que ela também é amante de literatura e escrita. Batista disponibilizou-se para fazer a revisão das suas futuras obras. “Naquele instante, eu não hesitei e convidei-a para fazermos um projeto juntos. A Alda não aceitou imediatamente, mas eu também não desisti. Depois de uma certa insistência, ela superou as suas hesitações, chegou a conclusão que realmente valeria a pena e nós começamos a trabalhar. Em pouco tempo, conseguimos adiantar as coisas e o presente que recebemos dessa parceria foi o Somos Todos Primos: Um diálogo de emoções.”

Cardoso contou ao STP Digital que o título da obra Somos Todos Primos foi inspirado num poema que tem o mesmo título. “Em Londres, quando apresentei o Poesia para Todos, o Guedes Medeiros estava presente e escutou o tal poema “Somos Todos Primos” e sentiu-se contagiado. Numa entrevista para a Rádio Somos Todos Primos, ele perguntou-me se a próxima obra já tinha título. Eu hesitei em responder-lhe porque também não sabia se ele estaria de acordo em ter ligação com uma obra literária sabendo que o Somos Todos Primos é um projeto que ele já carrega há mais de 7 anos.” Cardoso e Medeiros estavam em tal sintonia, que o fundador da Rádio Somos Todos Primos sugeriu que a próxima obra se intitula-se “Somos Todos Primos”. O poeta acrescentou ainda que o facto dele e a sua co-autora estarem unidos pela língua portuguesa também pesou na escolha do título da obra. “A expressão “Somos Todos Primos” é tudo o que existe nessa essência. O STP de São Tomé e Príncipe também pode ser “Somos Todos Parentes”ou “Somos Todos Portugueses”, fomos colonizados por eles e herdamos muita coisa. Portanto, digamos que somos filhos, somos enteados e a nossa ligação com Portugal permanece e acredito que durará por muito tempo.”

Alguns poemas da obra estão no crioulo de Cabo Verde. Cardoso explicou-nos que a sua ligação com aquele país começou ainda nos tempos em que vivia em São Tomé. “Eu vivia com o meu tio, que foi gestor em diversas empresas agrícolas, onde até hoje vivem muitos cabo-verdianos.” Os seus primeiros contactos com o crioulo foram lá, mas confessa que até chegar a Holanda nunca tinha ousado falar. É a língua materna da mãe dos seus filhos, com quem vive há 20 anos. “Quando apresentei o livro Poesia para Todos em Roterdão, os presentes na sua maioria pertenciam a comunidade cabo-verdiana. Eu na altura apresentei um poema no crioulo são-tomense e eles perguntaram pelo crioulo cabo-verdiano. E assim, prometi-lhes que na minha próxima obra colocaria pelo menos um poema no crioulo de Cabo Verde.” O prometido é devido e assim foi.

Apesar de não viver em São Tomé e Príncipe há mais de 19 anos, Cardoso tem visitado o país com alguma frequência. Disse que o arquipélago está diferente. “É complicado fazer um balanço geral porque sou um tanto cauteloso ao fazer críticas sociais. Há coisas muito boas em São Tomé e existem coisas que deveriam estar melhor, mas acredito num futuro próspero”.

Sempre que parte, confidenciou ao STP Digital que o sentimento é o mesmo: saudades. “Muita gente diz que vem cá matar saudades. Não estou de acordo. Nós voltamos cá para desmaiar saudades porque se pudéssemos matar as saudades nunca mais regressaríamos. A saudade é um sentimento que nunca morre”.

Escrito por
Katya Aragão
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