A MUÁLA de Jorcilina Correia

Jorcilina Correia (27 anos) estudou jornalismo no Brasil e tal como muitos estudantes são-tomenses também regressou para o solo que a viu nascer. Regressou com muita vontade e energia para fazer acontecer e recentemente lançou a versão impressa da já existente revista digital Muála. O STP Digital esteve à conversa com a jovem empreendedora, que espalha charme e profissionalismo.

Feminista por convicção

Assumidamente feminista em todos os seus poros, Jorcilina disse ao STP Digital que hoje em dia fala-se muito da primavera das mulheres: “As luzes começam a acender sobre os casos de violência doméstica, pedofilia, estupro e assédio. As mulheres estão a livrar-se das amarras do medo e da vergonha e começam a denunciar. Eu luto pela igualdade! Não perspectivo um mundo dominado por mulheres onde os homens são escravos. Almejo a igualdade, o direito de acompanhar e participar, lado a lado com os homens, a construção de um mundo melhor.” E fundamenta o seu feminismo também no facto de que apesar de todas as batalhas que as mulheres já travaram desde o início dos tempos, a verdade é que as mulheres ainda não são realmente livres.

Justamente inspirada nas mulheres escolheu a palavra ‘Muála’ (da língua forra, que significa ‘Mulher’) para batizar a sua primeira criação. O projeto Muála nasceu há sensivelmente 2 anos. Surgiu da necessidade de divulgar um São Tomé e Príncipe real e consequentemente uma África nova, cheia de sonhos e perspectivas. Jorcilina estava cansada das imagens negativas de África – fome, doenças, conflitos, corrupção e da inexistência de informações sobre São Tomé e Príncipe: “Então decidi colocar o meu país em destaque mas desta vez por um bom motivo e reescrever a história do rico continente africano.”

A fundadora da Muála pretende mostrar que São Tomé e Príncipe é um lugar perfeito para sonhar, embora as contrariedades. “Este é o melhor lugar do mundo para se viver. A África dos africanos deve ser vista pelo mundo com toda a sua extensão, diversidade e que se pinte a África com todas as cores que realmente existem na linda história do povo africano.”

A concretização de um sonho

Hoje, a jornalista colhe o fruto de muitas noites sem dormir. “Sinto que sonhar é maravilhoso, mas ter a sensação de ver um sonho tornar-se realidade é inexplicável! Hoje a Muála está nas bancas em São Tomé e Príncipe, não só por mim, mas por pessoas que sonharam juntamente comigo, pessoas que acreditaram e que me incentivaram.”

Jorcilina acrescentou ainda que os são-tomenses que acordam todas as manhãs para trabalhar perspectivando um futuro melhor têm sido a sua principal inspiração. “As mulheres que acreditam e dão o seu contributo para o desenvolvimento de São Tomé e Príncipe, os jovens que trabalham para o desenvolvimento económico do país, os dirigentes que através de políticas trazem mais investidores para o país, mostraram-me que a Muála poderia sair do discurso para execução se eu quisesse”, disse a jovem empreendedora.

Sobre a revista

No dia 10 deste mês, a jovem empreendedora lançou a primeira edição impressa da revista Muála. “Foi uma maravilha! Quando vi o produto final fiquei encantada!” Para as edições vindouras, Jorcilina promete muita cor, muita paixão, cultura e turismo. “Vamos representar o nosso São Tomé e Príncipe em algumas páginas, toda a sua diversidade, miscigenação, riqueza cultural e a nossa gente!” A Muála fez o movimento inverso: passou do digital para agora estar também disponível em papel. Jorcilina acredita que embora na era digital, o papel é o futuro! “Começamos com a versão digital e sempre estaremos disponíveis para o público que quiser acessar a revista digital. Mas a revista impressa surge ainda com o objetivo de incentivar a leitura, bem como levar a revista a casa das pessoas que não a podem acessar digitalmente. Assim, estaremos a levar a riqueza das ilhas de nome santo às casas dos são-tomenses.

Regresso as origens

Jorcilina regressou há cerca de três meses para São Tomé. Depois da experiência universitária e de tudo o que aprendeu, disse que foi preparada para a realidade do mercado de trabalho do país porque esta é a sua realidade. “Sei que muitas coisas são diferentes em relação ao que tenho presenciado no estrangeiro. Mas esta é a minha forma singela de contribuir para o desenvolvimento de STP.”

Agora que vê São Tomé e Príncipe com olhos de uma recém-formada que acabou de entrar no mercado de trabalho, a Diretora da Muála concluiu que não basta só dizer que o país é um paraíso escondido num canto do universo. “Há que se trabalhar para que o paraíso seja visto por todos. São Tomé e Príncipe são duas ilhas pequenas com um povo de coração grande! Ainda há muito caminho pela frente, mas se todos fizermos a nossa parte, STP será um paraíso para as mães solteiras, vianteiros, peixeiras, motoqueiros, taxistas e todos os que fazem parte desta nação. Não podemos esperar que o vizinho venha arrumar a nossa casa!”

Jorcilina espera que sejam criadas mais oportunidades para se investir na capacitação de mais pessoas, já que a educação é o pilar de qualquer país desenvolvido. “Espero que os jovens sintam-se cada vez mais motivados a dar o seu contributo, pois a juventude é volátil, cheia de força, de ideias, sonhos, e se todos tivermos a oportunidade de realizar os nossos sonhos, STP estará na linha da frente em relação ao continente Africano”, afirmou a jornalista.

Visão do país

Jorcilina é de 1989, portanto faz parte da geração que não teve de batalhar pela independência, mas que no entanto testemunha a crescente dependência de ajuda externa do país e está consciente da dívida externa de São Tomé e Príncipe. São pequenas coisas a que muitos jovens ainda não prestam atenção, talvez por não terem a noção de como isso os afecta.

A fundadora da Muála não encara estas “ajudas” de ânimo leve: “Estes valores são pagos pelos são-tomenses. A população é pequena e a economia também. Porém espero que estas “ajudas” não nos coloquem em situações de constrangimentos. Não basta só criticar, é necessário reconhecermos que podemos tirar partido destas situações. Ainda temos marcas da colonização, não podemos ser levianos a ponto de pensar que os países nos ajudam sem objetivarem algo em troca.”

No que se refere a comunicação social em São Tomé e Príncipe, como jornalista, Jorcilina acredita que a classe precisa de trabalhar mais em matéria da isenção: “O jornalista é formado para informar. Cabe ao jornalista, somente, a notícia.”

Escrito por
Katya Aragão
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